CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO

A Personagem encontra Sónia Nisa

– Doutor, gostaria de lhe falar do que me traz por cá. Não falo da incontinência do cárdio. Não. Mas do estômago que se recusa a digerir no que a vida se tornou.
Aquela coisa que me toldava a alma transbordou. Escorreu. Sobe em refluxos ácidos. Azia. Ecografias. Endoscopias e comprimidos arrumados na prateleira da cozinha, junto aos frascos das massas e do arroz.
Doutor, deixe-me falar-lhe desta frustração que me ilumina os dias. Vomito estilhaços de desempregos, quartos alugados e famílias esquadrinhadas. O ventre que dói corporiza o não-lugar em que se transformou a minha existência. Pequena. Irrisória. Redutível a duas malas de porão arrumadas num rés-do-chão de Londres.

Texto de Sónia Nisa

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