MONÓLOGO A DUAS VOZES

A Personagem encontra Joana Avi-Lorie

– A consciência por vezes é uma coisa terrível, uma maldição! Faz-me odiar toda a gente por ver milimetricamente a sua fraqueza e mesquinhez e depois faz-me sentir desamparado sem ninguém e ir a correr atrás das pessoas ansioso para lhes por nas mãos a minha fraqueza e a minha mesquinhez e deixá-las à vontade para trair a minha confiança e não se importarem com isso! A minha consciência empurrava-me neuroticamente para a inconsciência, dependendo das horas. E não conseguia libertar-me desse sentimento nem dessas pessoas, era como se precisasse delas para andarem às voltas como pássaros tontos com imagens de vidas nos bicos, entre elas a minha, para me sentir superior e menos só? Outra vez a merda da solidão. A ânsia, que podia roçar o exagero, de um sentimento de pertença. As várias fases obsessivas, como modas mas só para mim, que tentava encadear com algum sentido de causalidade que não tinham. Ela tinha muita razão num aspecto, que não deveria dizer isto às pessoas, que elas iam magoar-me e fazer-me acreditar e acreditar entre elas, nessas tertúlias de aves tontas, que eu era o pior de nós todos e que sabendo isso, não tencionava mudar. Mas isso não era verdade, ela garantira-me que não era verdade e ela sabia de todos mesmo quando não o queria dizer em voz alta. Eu tinha mais medo da solidão mesmo, de andar na rua e encontrar os tais desconhecidos com quem partilhava memórias, e não fazer agora sentido falar-lhes, ser obsoleto convidá-los a tomar um café. Pensar que não me tinham em conta nenhuma e que tudo o que lhes dei de mim e das minhas coisas foi deitado fora nas arrumações que vão fazendo nas suas vidas. Tenho medo de ser deitado fora, tenho medo de deitar coisas fora. Mesmo aquilo que não presta, Mila, principalmente aquilo que não presta.

Escuta, se te queres sentir menos sociopata, vou contar-te: eu amei-o apenas porque ele me amava. Porque. O facto de saber que isso não era verdade, reescreveu a nossa história e acho que é por isso que tenho mais facilidade em libertar-me das pessoas. Sou obcecada em ser amada, entendes? Valorizo-me mediante a valorização dos outros e as coisas que faço, as coisas que me tornam tão boa como dizes, são exclusivamente para ser amada. Como um cachorrinho. Nunca é suficiente. É patético, não é? Por isso é que não ando aí de peito aberto como tu a apregoar a minha fraqueza. Claro que as pessoas farejam fraqueza, lêem-na nos meus olhos mesmo sendo um bocado estúpidas. Mas tenho o benefício da dúvida. E é bastante menos patético do que essas pessoas-pássaros que andam por aí a esvoaçar com vidas nos bicos, pousando onde não carecem deles, muito menos do que trazem, que nem é real, são imagens. Tenho mais medo das pessoas do que da solidão. Tenho mais medo das pessoas porque têm ideais que não praticam e são voláteis e ninguém parece ver isso. Tenho mais medo de não me conseguir mexer por ter a vida atulhada de gente e coisas que já não fazem sentido mas que não deito fora porque acho que sou feita das memórias. Mas eu sou feita de amor. Do que dou e do que me dão. No que diz respeito a pessoas, tudo o resto, reduzo eu ou reduzem a pó que cai entre os meus dedos e não tenho pena nenhuma.

Texto de Joana Avi-Lorie

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