PRETÉRITO DO INDICATIVO FUTURO

A Personagem encontra paulusricardus, aka Ogyen Lhatzo

– Tudo começou com a Alexandra David-Néel, uma profissão de vendedor, um quarto em Leiria e muito tempo para leituras. O livro chamava-se Místicos e Mágicos do Tibete, a profissão era Delegado de Propaganda Médica e o quarto era numa residencial onde, de dois em dois meses, tinha um quarto reservado por três semanas.

Comecei a comprar imensos livros sobre budismo, quase todos eles edições estrangeiras, que em Portugal nada havia sobre a matéria, e descobri um pequeno grupo de budistas em Lisboa com quem comecei a praticar ioga, a aprender rudimentos de tibetano  e assuntos sobre a organização deles. Logo após uns dois meses acompanhei-os  ao mosteiro de Nyma Dzong, onde o Lama Kunzang, cabeça da organização, deu Ensinamentos. Foi lá que eu tomei Refúgio, que é um compromisso de vida budista. Imediatamente me apaixonei pelo mosteiro e pelas florestas que o circundavam, típicas dos Alpes franceses. Voltei para Portugal e a aventura mística levou-me de novo para Nyma Dzong, desta vez para ficar. Lá vivi numa cabana de meditação lindíssima, no meio da floresta e a cem metros do edifício principal, onde vivenciei de tudo um pouco : amizade, compreensão, paz, entrega a práticas religiosas, mas também medos, obsessões, flirts, saudades, enfim, várias emoções (limpeza do karma, digo eu), em tudo diferentes daquilo que estava na minha fantasia, derivado directamente das descrições da Alexandra David-Néel : capacidades psíquicas, visões, poderes sobrenaturais… Ao fim de dois meses, regressei. Desiludido. Hoje sei mais.
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Texto de paulusricardus, aka Ogyen Lhatzo

Nome?… Bilhete de ida duzentos mil e tal.

A Personagem encontra um Anónimo

– Eu emigrei. Disseram-me para ir e eu fui. Ou melhor, tiraram-me todas as razões para ficar: emprego; possibilidade de exercer a minha vocação (que ninguém pareceu apreciar grandemente); um filho emigrado também.

Hoje trabalho numa fábrica de queijos em Inglaterra. E até já me esqueci de dizer que sou psicóloga. Mas às vezes sinto-me assim. Não ao analisar os queijos e o seu estado enquanto fermentam, mas ao ouvir os colegas, as suas mágoas por estarem longe. São quase todos emigrantes, emigrados. Eu falo mal outras línguas, mas todos nos compreendemos na linguagem da gente só. Fazemos queijo sobretudo para exportar, se calhar para Portugal. Às vezes penso nisso: que tirei um curso e pago ao meu país em queijos. Ficou cara a minha formação, paga a dobrar. Ou a triplicar, se contarmos com o preço da solidão.

Nem queijo como. O pão nem lhe toco, não tem sabor. Sonho com o dia em que estarei na minha aldeia (sim, eu tenho terra, não é irónico?), a comer broa de milho e queijo de cabra. A minha mãe, que nunca viajou, dizia-me que não havia melhor em todo o mundo e eu, que viajei à força, acredito nela. Já não vou a tempo de lhe dizer que ela tinha razão, mas hei-de provar que ela estava certa, quando tiver a faca e o queijo na mão.

Texto recriado a partir da história de um Anónimo

“EU NUNCA ME ESQUECI DE TI”

A Personagem encontra Carla Grijó

– Há um tempo para tudo. Também para o reencontro. Terão passado trinta anos desde que a vi? Talvez mais, talvez menos…Mas o abraço é o mesmo, assim como o sorriso e o reflexo de se ausentar um pouco, de vez em quando, para pensar melhor. Em trinta anos acontece muita coisa, muita vida. Eu parti, regressei, parto de novo… mas não sem antes lhe dizer, mesmo que por gestos, “eu nunca me esqueci de ti”. Ela mantém a chama e conforta-me saber que se pode atravessar a vida sem ferir o que nos sustém. A chama de uma mulher-anjo-diabo. Podia ouvi-la a noite inteira, a falar-me dos seus projectos, dos livros que escreverá, do filho que tateia o seu caminho como quem morde uma maçã pela primeira vez. “Por onde andaste?” – pergunta. Por muitos sítios mas, na verdade, nunca saí daqui. A geografia não é o mais importante. Recordo-me de um verso que a cada passo me subia à cabeça quando era adolescente – Vou ali já venho/ Vou ver como sou por dentro eu… E fui… e voltei…em ondas, mas “nunca me esqueci de nós”. Continuar a ler

A ADAGA

A Personagem encontra Nelson Henriques

Vida breve, leve, tórrida
Severa anti-lei: fornalha
Decrépito destino, perdido
E a luta, última: mortalha.

Tão só, agonizo – sangrento
Fuzilada emoção: o motivo
A voz, turbulenta – tormento
Esfumada aflição: sobrevivo.

Tenebroso e solitário viver
Sufocado, enfim: em mim
Conflituoso e amargo sofrer
Navegado, assim: meu fim.

Delira em vaivém, sem ir
Mortal – a ferida alastra-se
Abreviando, para expandir
Viaja, meu rasto: desenlace.

                                                                                                                                                                                                                       Texto de Nelson Henriques