DIRECÇÃO

A Personagem

Há quem colha os frutos– os das árvores, os das paixões. Há quem colha dividendos, informações, sangue e tempestades. Há quem recolha lixo– o das ruas e o dos dias. Quem recolha animais, comida, indícios, o sal.
Eu sou recolectora de histórias. Emprego o meu desemprego a ouvir os outros. Ou ando aos papéis, tanto faz. Um dia conheci um taxista. Não sei como a conversa foi dar ali, acho que por um semáforo avariado a empatar a minha pressa.
– Gostava que a minha vida andasse rapidamente para a frente– acho que foi assim que eu disse.
– Não tem tempo para a sua vida?– perguntou ele a modos que distraído.
Não percebi bem. De qualquer forma, disse que sim. É uma resposta válida como outra qualquer quando calha falar do tempo.
– Ainda bem.
Quando dei por mim estávamos a atravessar a ponte sobre o rio. Atravessar é uma forma demorada de dizer. A paisagem passava a uma velocidade tão furiosa que tudo furiosamente desaparecia: o barco era já um barquinho para logo ser ponto e logo nada, as casas nem casinhas seriam, só gente vaga logo apagada lá para trás. Voltámos pelo mesmo caminho e nos mesmos modos. Eu estava um bocado maldisposta, sobretudo porque nem tinha tido tempo para reclamar.
– Gostou?– perguntou ao chegarmos ao meu destino.
Não me levou dinheiro da corrida mas ainda assim não gostei. Era uma tosca metáfora de como eu queria andar na vida e eu não estava habituada a receber lições dos taxistas. Na pressa de parar, contudo, deu-me para pensar isto: Nunca mais vou acelerar por aí até perder de vista as pessoas, até as perder. As pessoas precisam de tempo.
As pessoas precisam de tempo e eu sou uma recolectora de histórias. Colho os dias, as paixões. E regresso ao ponto morto como quem recolhe a casa.

SEM PARAGENS- em três andamentos

A Personagem encontra Marlene Frias

(A viagem)

– Surgem-me analogias repentinas, e numa viagem sem muitas certezas e com inseguranças, agarro-me a sentimentos enraizados em mim, como quem se agarra à vida.

                        – A dureza dos motores, a dureza da saudade.

A dureza dos motores numa partida – reforça a dureza de uma saudade; porém esta vai ficando para trás, numa pausa suspensa.

Levo em mim uma aliança que mantém os motores ligados. Admiro um azul que rodeia e embala a branca doçura das nuvens. Irei mergulhar neste azul e aterrar, num preenchimento do meu ser.

(4 meses depois)

Os sentimentos não param…as saudades também não. A descoberta galga cada dia que se vai vivendo. Ideias que se pensavam assentes, agora fazem-me oscilar, tornando-as incertezas e conversas a fio, sem conclusão.

O difícil cada vez menos difícil; o olhar para pessoas tão diferentes de mim, e ser cada vez mais tolerante.

A aliança cada vez mais forte. A vontade também…vontade de se poder viver tudo aquilo que se sente.

(Amanhã)

As saudades irão continuar, as descobertas também.

A aliança manter-se-á forte e ligará de novo os motores, para voar à procura de novas (in)certezas.

 Texto de Marlene Frias

HISTÓRIAS DE AMOR

A Personagem encontra Maria Ondjamba

– Procuro-o, para só olhá-lo. Está mal vestido. Meio descalço. Dedico-lhe horas, meia confundida e arranhada entre os ramos dos arbustos, a segui-lo na sua tarefa de construir caixotes. Ele carrega tábuas de um lado para o outro. Decoro-lhe os músculos tensos nos braços negros, a falarem do peso da madeira e o suor devagar a descer nas fontes. Aproximo-me do sítio onde descarrega as tiras compridas e sento-me perto. Ele pergunta-me se estou boa, diz-me que saia do sol, que é forte, que vá para dentro de casa brincar. Não lhe respondo com palavras porque tenho de fixar a sua voz, como se a fosse desenhar a seguir. Olho-o tanto, que fico a pensar se não vai ficar gasto. Entre os homens que estão a trabalhar no quintal, ofereço-lhe tudo quanto posso das minhas infantis coisas. Leva-me a cadeira de empurrar bonecas. Faço acreditá-lo que lá pode sentar o seu filho de meses. À tardinha parte rua fora como uma ave num céu demasiado grande, numa das mãos cansadas um saco de coisas, pequenos brinquedos, coisas de nada e de que se ri, quando lhas mostro entusiasmada antes de lhe entregar a bolsa. Não sei se sabe ler. Não lho pergunto. Quem me dera deixar de saber ler, para não ter estas aflições. Talvez ainda eu não tenha idade para ser mulher de ninguém. Como se sabe isso? É uma idade ou uma vontade tipo montanha? Tenho a certeza de que não tenho ninguém neste mundo a quem perguntar. Esqueço o pesadelo do futuro que vejo em filme nos olhos dos pais, à hora das refeições, quando os têm mais baixos. Deve ser por causa dos caixotes de que precisam para mudarmos de continente. Levanto-me todas as manhãs, enquanto ouço um martelar. Gosto do seu cheiro forte. Encho muito os pulmões, ao seu lado, a fingir que brinco. Depois vou-me embora devagar, sem vontade de deitar o ar fora. Não sei como lhe vou dizer que me leve com ele.

Texto de Maria Ondjamba

MONÓLOGO A DUAS VOZES

A Personagem encontra Joana Avi-Lorie

– A consciência por vezes é uma coisa terrível, uma maldição! Faz-me odiar toda a gente por ver milimetricamente a sua fraqueza e mesquinhez e depois faz-me sentir desamparado sem ninguém e ir a correr atrás das pessoas ansioso para lhes por nas mãos a minha fraqueza e a minha mesquinhez e deixá-las à vontade para trair a minha confiança e não se importarem com isso! A minha consciência empurrava-me neuroticamente para a inconsciência, dependendo das horas. E não conseguia libertar-me desse sentimento nem dessas pessoas, era como se precisasse delas para andarem às voltas como pássaros tontos com imagens de vidas nos bicos, entre elas a minha, para me sentir superior e menos só? Outra vez a merda da solidão. A ânsia, que podia roçar o exagero, de um sentimento de pertença. Continuar a ler

CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO

A Personagem encontra Sónia Nisa

– Doutor, gostaria de lhe falar do que me traz por cá. Não falo da incontinência do cárdio. Não. Mas do estômago que se recusa a digerir no que a vida se tornou.
Aquela coisa que me toldava a alma transbordou. Escorreu. Sobe em refluxos ácidos. Azia. Ecografias. Endoscopias e comprimidos arrumados na prateleira da cozinha, junto aos frascos das massas e do arroz.
Doutor, deixe-me falar-lhe desta frustração que me ilumina os dias. Vomito estilhaços de desempregos, quartos alugados e famílias esquadrinhadas. O ventre que dói corporiza o não-lugar em que se transformou a minha existência. Pequena. Irrisória. Redutível a duas malas de porão arrumadas num rés-do-chão de Londres.

Texto de Sónia Nisa