A Personagem
Há quem colha os frutos– os das árvores, os das paixões. Há quem colha dividendos, informações, sangue e tempestades. Há quem recolha lixo– o das ruas e o dos dias. Quem recolha animais, comida, indícios, o sal.
Eu sou recolectora de histórias. Emprego o meu desemprego a ouvir os outros. Ou ando aos papéis, tanto faz. Um dia conheci um taxista. Não sei como a conversa foi dar ali, acho que por um semáforo avariado a empatar a minha pressa.
– Gostava que a minha vida andasse rapidamente para a frente– acho que foi assim que eu disse.
– Não tem tempo para a sua vida?– perguntou ele a modos que distraído.
Não percebi bem. De qualquer forma, disse que sim. É uma resposta válida como outra qualquer quando calha falar do tempo.
– Ainda bem.
Quando dei por mim estávamos a atravessar a ponte sobre o rio. Atravessar é uma forma demorada de dizer. A paisagem passava a uma velocidade tão furiosa que tudo furiosamente desaparecia: o barco era já um barquinho para logo ser ponto e logo nada, as casas nem casinhas seriam, só gente vaga logo apagada lá para trás. Voltámos pelo mesmo caminho e nos mesmos modos. Eu estava um bocado maldisposta, sobretudo porque nem tinha tido tempo para reclamar.
– Gostou?– perguntou ao chegarmos ao meu destino.
Não me levou dinheiro da corrida mas ainda assim não gostei. Era uma tosca metáfora de como eu queria andar na vida e eu não estava habituada a receber lições dos taxistas. Na pressa de parar, contudo, deu-me para pensar isto: Nunca mais vou acelerar por aí até perder de vista as pessoas, até as perder. As pessoas precisam de tempo.
As pessoas precisam de tempo e eu sou uma recolectora de histórias. Colho os dias, as paixões. E regresso ao ponto morto como quem recolhe a casa.